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Rebecca: o livro clássico e suas adaptações cinematográficas

Devido a sua complexidade, não é uma obra fácil de ser adaptada, mas é exatamente este fator que a torna uma história fascinante e atemporal.
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Toda mulher carrega em si, de forma consciente ou não, fantasmas. Espectros do passado, expectativas para o futuro, personas para diferentes pessoas e ocasiões. Em Rebecca, o fantasma da história é “a outra”. A outra, apesar de já falecida – ou justamente por isso – ainda representa o ideal feminino. Com sua beleza estonteante e personalidade magnética, Rebecca coloca todos sob o feitiço dos seus charmes. Ela deixa rastros por onde passou, seja um olhar distante em quem a conheceu ou uma assinatura rebuscada na primeira página de um livro.

Através de “Rebecca”, sua obra mais consagrada, a americana Daphne Du Mourier é reconhecida como uma das escritoras de suspense e terror gótico mais importantes por criar o que permanece como um dos finais mais impactantes da literatura. O livro deu origem a inúmeras adaptações, sendo a mais conhecida o filme clássico de Hitchcock e, agora, a nova versão da Netflix, dirigida por Ben Wheatley. Devido a sua complexidade, Rebecca não é uma obra fácil de ser adaptada, mas é exatamente este fator que a torna uma história fascinante e atemporal.


O livro

+compre aqui Rebecca o livro que deu origem aos filmes.

divulgação / Avon Books

Publicado pela primeira vez em 1938, o best-seller da escritora americana Daphne du Mourier, “Rebecca”, é uma obra que não cabe na caixa de um só gênero, contendo em si aspectos de thriller, romance gótico, mistério e terror psicológico.
“Rebecca” tem como protagonista uma jovem órfã inocente – cujo nome nunca nos é revelado – de 21 anos que trabalha como acompanhante para uma odiosa mulher chamada Mrs. Van Hopper. Ao viajar para Monte Carlo com sua patroa, ela acaba conhecendo o rico, misterioso e recente viúvo, Maxim De winter, morador da enigmática mansão britânica Manderley.
Depois de pouco tempo de se conhecerem, de forma abrupta, De Winter pede a nossa protagonista em casamento. Os dois voltam juntos para Manderley, onde somos confrontados com o passado na forma da memória da finada primeira Mrs. De Winter, Rebecca, adorada por todos. Lá, a inexperiente narradora também conhece a intimidadora governanta da casa, Mrs. Danvers, que deixa claro a sua afeição por Rebecca.

+Denso, enigmático e difícil de digerir. Estou pensando em Acabar com Tudo tem essas características irão afastar uma parte da audiência, que pode reduzir o filme a um ajuntamento pretensioso.


Em sua essência, “Rebecca” é sobre as limitações que acompanham as mulheres da história, desde a governanta até a dona da casa. É sobre todas as pressões estéticas e as vazias normas sociais que vem junto com o peso da feminidade. Sobre como, para muitas, o casamento é uma das únicas formas de ascensão social.
Os personagens criados por Du Mourier são complexos e enigmáticos. A ambientação, como em toda boa narrativa gótica, é um dos pontos chaves da história, em especial a descrição de Manderley, mansão em que se passa boa parte da história e que toma vida nas páginas do livro.
Talvez o grande trunfo da obra seja o clima de suspense e ambiguidade criado, que faz com que o leitor segure o fôlego em certas cenas. Ao decorrer da história inúmeras revelações são feitas, mudando o rumo da narrativa e aumentando sua complexidade.
O final é um deleite a parte. Algumas perguntas são respondidas, outras são criadas e o que fica é o impacto de uma obra bem construída e suas reflexões que perpassam o seu tempo.


O clássico de Hitchcock

divulgação / The Criterion Collection


Em 1940, apenas dois anos após a publicação de Rebecca, um best-seller da época, o diretor Alfred Hitchcock trouxe a história às telas do cinema na sua adaptação estrelada pelos atores Laurence Olivier (Max de Winter), Joan Fontaine (a segunda Mrs. De Winter) e Judith Anderson (Mrs. Danvers). A adaptação ganhou o Oscar de Melhor Filme e é considerada uma das obras primas do diretor. A Rebecca de Hitchcock é um primoroso exemplo de filme noir onde os aspectos técnicos – como o uso da luz, edição e movimento de câmera – ajudam a construir o suspense e imergir o telespectador na trama. A cinematografia em preto e branco casa perfeitamente com o aspecto gótico da narrativa. Hitchcock também utiliza inúmeros close-ups e ângulos inusitados para trazer a tona a claustofobia presente na história.

+O ponto alto da We Are Who We Are é a construção de personagens multidimensionais e complexos.

As atuações do elenco principal, em especial de Judith Anderson como Mrs. Danvers, fazem jus a história, apesar de que, em alguns momentos, podem parecer datada para o público moderno.
Hitchcock encontrou em Rebecca a história perfeita para exibir o domínio técnico e o suspense ligado ao seu nome. Entretanto, apesar de ser considerado uma obra perfeita por muitos cinéfilos, os amantes do livro de Du Mourier podem não apreciar algumas mudanças cruciais feitas no enredo, em especial no último ato que, ao contrário do livro, foi simplificado para caber na duração do filme. O diretor também diluiu a grande revelação da trama para uma maior aceitação da audiência, o que diminui consideravelmente a complexidade da história. Apesar das falhas, a Rebecca de Hitchcock conseguiu capturar a atmosfera da obra original e introduzir um novo público ao livro.


A nova adaptação do Netflix

+assista a nova adaptação de Rebecca no Netflix

divulgação / Netflix


As comparações da nova adaptação do diretor inglês Ben Weathley com o clássico de Hitchcock são inevitáveis. Talvez por ter isso em mente, a sensação que fica é que Wathley tentou se distanciar propositalmente do seu antecessor. Em contraste com a estética gótica de Hitchcock, o novo Rebecca usa cores vibrantes, que geram um visual quase Camp no filme. Outra escolha que diverge da primeira adaptação foi o uso de cenas surrealistas como modo de ilustrar o aspecto sobrenatural da história e os turbilhões internos da protagonista.

O filme é protagonizado por Lily James (a segunda Mrs. De Winter), Armie Hammer (Max de Winter) e Kristin Scott Thomas (Mrs. Danvers). As atuações são satisfatórias, sendo a performance de Thomas um destaque nesta adaptação. James e Hammer mostram química suficiente para prender a atenção do telespectador, mas não conseguem salvar o roteiro. Em uma tentativa de adaptar a história para o público moderno, Wathley intensifica o aspecto carnal no relacionamento, o que diverge da obra original, onde a autora deixa claro que a dinâmica entre Maxim e a segunda Mrs. de Winter é, em boa parte da obra, assexual e fria. Esta nova leitura tira boa parte da ambiguidade do relacionamento e suaviza a crítica de Du Maurier sobre as dinâmicas de poder entre o casal.

+Normal People deixa no público a sensação de assistir algo real na tela.

Apesar do enredo ser, em partes, mais fiel à obra original do que o filme de hitchcock, o novo Rebecca falha em capturar a atmosfera de ansiedade e o suspense presentes nas páginas do livro de Du Mourier. O roteiro prenuncia de maneira óbvia cada ponto da trama por vir, o que enfraquece o fator surpresa. O final foi despido de sua ambiguidade original e tornou-se banal e piegas. Em suma, a nova adaptação de Rebecca é um emaranhado de ideias enfeitado com belos sets e um notável design de produção que prende a atenção do telespectador durante a duração do filme, mas é esquecível momentos após os créditos rolarem.