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Os bastidores políticos e cinematográficos de “Três Verões”

A diretora Sandra Kogut mostra que os capítulos passados da política nacional também têm potencial de deixar suas impressões na sua carreira.
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assista TRÊS VERÕES no CINE DRIVE-IN

Em entrevista ao Cinefans, a diretora Sandra Kogut compartilha suas experiências na produção do filme, com foco claro na narrativa política atual

O cenário político estampado nas telas de cinema não é novidade para brasileiros, e a risada descomedida abre espaço para a crítica social incômoda. No primoroso “Três Verões”, estreado na última quinta-feira, a diretora Sandra Kogut mostra que os capítulos passados da política nacional também têm potencial de deixar suas impressões na sua carreira. Depois de Um Passaporte Húngaro (2001), Mutum (2007) e Campo Grande (2016), tão diferentes entre si, Kogut mostra uma nova faceta do Brasil pelos olhos de quem é esquecido na repercussão dos acontecimentos políticos.

Cinefans (CF): Quais foram as suas inspirações para o Três Verões?

Sandra Kogut: Para mim, como diretora, um filme só pode ser uma coisa que a gente quer muito falar, e eu estava com muita vontade de falar sobre aquele momento do Brasil. O trabalho vai começando e vão surgindo os elementos, acompanhando as notícias que o Brasil inteiro já acompanhava, e eu fui me perguntando onde estavam aquelas figuras no entorno dos ricos e poderosos quando tudo desmorona. A gente não via muito esses personagens, e essa foi a pergunta inicial que foi o motor que fez avançar o projeto.

Na verdade, quando eu comecei o Três Verões, eu fiquei tão envolvida que deixei de lado outro projeto, e inclusive chamava os figurantes desses outros filmes. Engraçado que tem uma coerência enorme entre as duas ideias porque, no três verões, eles também são figurantes da história.

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CF: No longa, você aborda a relação entre os empregados da casa e os donos com um viés diferente do esperado. Como surgiu a ideia de mudar o ponto de vista, focando no olhar dos empregados? Quais foram as dificuldades encontradas para representar Mada e sua equipe de forma verossímil?

Kogut: Eu quis fazer esse filme porque eu queria contar essas histórias, e claro que esses personagens acabam sendo inspirados em várias pessoas que eu convivi. Por muitos anos, tinha uma “Mada” que trabalhou na casa dos meus pais durante a minha infância.

Eu realmente fiz uma escolha que, em uma estrutura de roteiro, não é considerado muito dentro da regra. No começo do filme, a gente acredita que os personagens são alguns, mas na verdade são outros. A história do cara que vai preso não é, de fato, a história principal. Por isso mesmo que essa estrutura episódica se presta bem a esse filme. Os personagens do Edgar, Martha e Mada são inspirados em pessoas que eu observei, vi, coisas que eu li. O mais importante para criar qualquer personagem é ter o entendimento humano. Não como uma categoria, como um tipo, e sim como uma pessoa. Isso que eu acho que é a alma de um filme.

CF: Quais foram os critérios analisados na escolha do elenco? Ficou satisfeita com o resultado nas telonas? Você acredita que a individualidade de cada ator escalado enriqueceu a encenação dos personagens?

Kogut: A escolha do elenco, ainda mais nesse filme, essencialmente de atores e falas, foi uma coisa central para mim. No caso da Regina (Casé), ela é uma amiga e parceira de muitos anos. Fiz meu primeiro curta com ela e há muitos anos tínhamos prometido fazer um longa, e foi o projeto certo na hora certa. Todo mundo que tava ali ou eu já trabalhei ou quis trabalhar.

Você vai formando o elenco de várias maneiras, mas eu acredito muito que, quando eu penso em alguém para fazer um papel, também penso na figura humana. Eu acho que tem uma hora que o que eu estou buscando são as figuras humanas, e o resultado é o encontro entre isso e o personagem. Esse foi o primeiro filme que fiz em que praticamente todo mundo era ator, e foi um prazer muito grande trabalhar com eles. Fizemos com pouquíssimo dinheiro e tempo, mas tinha uma sensação coletiva de que era um filme importante e que todo mundo queria fazer.

CF: Qual foi a sensação de dirigir um filme como Três Verões, que apresenta também uma faceta da política brasileira?

Kogut: Mais do que a Lava Jato, eu queria falar desse projeto de país, dessa sociedade neoliberal em que é cada um por si, todo mundo tem que se virar. O que é para todos está se desfazendo, onde só se fala de dinheiro, tudo pode ser um negócio. O filme é cheio disso, e vai com uma escalada, desde as quentinhas da mada, e vai evoluindo por desespero. No filme, todos falam por dinheiro, seja por desespero, seja por ganância, e esse é o assunto do filme. Em outros países que as pessoas nem sabem o que é a Lava Jato, eles sentem que o filme é sobre eles.

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CF: Para você, como é se preparar para o lançamento do filme no Brasil depois de receber três prêmios, sendo dois em festivais no exterior? Qual a expectativa para a receptividade do público brasileiro?

Kogut: A expectativa é sempre alta, porque é um filme brasileiro e a sua vida no país é muito importante. Mesmo antes de lançar, tivemos prévias em São Paulo, Rio de Janeiro, Tiradentes, e todas essas sessões foram maravilhosas. Em São Paulo, teve uma ovação no final, foi muito emocionante. Em Tiradentes, teve uma multidão na praça, e dá para ver como o filme foi bem recebido. Foi muito gratificante ver que as pessoas estavam se conectando com o Três Verões. Ter viajado e construído o nome com o filme já é importante, e só de ter prestígio em lugares diferentes, já mostra como o diálogo com o público já existe.

CF: Desde o ano passado, o governo tem tomado medidas que restringem a cultura e o cinema, como as alterações na Ancine. Como você avalia o cenário atual do cinema brasileiro? Nesse sentido, como realizar filmes como o Três Verões fortalece a cinematografia nacional neste momento?

Kogut: O filme foi filmado em julho de 2018. Quando comecei a montar o filme, foi depois das eleições, e foi muito curioso ver como estava tudo ali, todos os sinais do que vinha pela frente, apesar de ainda ter uma cegueira. Quando o filme acaba, você vê que eles não têm ideia do que vem pela frente.

Esse é um governo que não valoriza nem um pouco a cultura, e usam a arte como propaganda. Para mim, é curioso porque eu comecei a fazer cinema na época do Plano Collor, e nossa geração foi meio sacrificada. Ao longo dos últimos 20 anos, vimos a importância das políticas públicas sólidas, que tornaram o cinema brasileiro muito mais diversificado. Passou a ser um cinema de muitos sotaques, olhares. Antigamente, para fazer cinema, ou tinha que conhecer alguém ou ser de família de cineastas, e agora se tornou muito mais acessível. Agora, o audiovisual se tornou um setor pujante da economia e emprega cerca de 300 mil pessoas, e está completamente ameaçado.

A escolha por retratar os verões como três atos, mostra como a passagem do tempo transforma a vida de quem sofreu com os impactos da política.

CF: Como é se colocar como uma diretora de cinema em um meio majoritariamente masculino, como é o caso do Brasil? De que forma no cinema brasileiro pode ser transformado por mulheres?

Kogut: Quando eu comecei, tinha muito menos mulheres no set. Já comecei com diretora, então além de eu ser mulher, eu ainda era muito nova. Eu pensava: como eu vou conseguir mandar nas pessoas e convencê-las de fazer o que eu acho ser certo? Eu acho que já teve uma evolução. Agora tem muitas mulheres em equipes de fotografia, na direção. Isso cria uma cena maravilhosa porque fica mais rico, os olhares são mais múltiplos. Sempre que é muito igual, é muito opressivo, mas ainda temos muito trabalho pela frente. O Brasil é um país muito machista, e tem muito que melhorar, mas já conseguimos dar um passo em direção à melhoria.

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