O Poço – O Óbvio?

Não sabemos quais são os limites de nossos valores e de nossas capacidades até o dia em que eles são colocados à prova.
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NETFLIX (sujeito a assinatura)

O PoçoEl Hoyo (2019) é um dos primeiros filmes de ficção científica minimalistas que conseguem fazer algo novo de uma fórmula antiga. Desde a Trilogia O Cubo (1997; 2002; 2004) não se encontra uma obra tão inspirada e capaz de entreter uma gama tão variada de telespectadores. A NETFLIX mais uma vez acerta com o desenvolvimento de um filme tão ousado quanto fascinante. Deve-se levar em conta que a classificação indicativa é de 18 anos, o que é justificado pelas cenas de violência gráfica no filme.

Goreng (Iván Massangué) “El Hoyo” – Basque Films; Mr. Miyagi Films; Plataforma La Película; e A. I. E./NETFLIX

Goreng (Iván Massangué) é um fumante compulsivo que toma a decisão de se internar em uma prisão espanhola conhecida como O Poço por seis meses a fim de curar o seu vício e ler Dom Quixote (1605). No entanto, a vida na prisão demonstra ser mais perigosa do que ele jamais seria capaz de imaginar até mesmo em seus piores pesadelos. A comida é escassa por culpa dos próprios detentos e a convivência pode variar desde a mais pura amizade até o mais sangrento conflito. Portanto, a busca pela sobrevivência dentro d’O Poço não conhece limites ou regras, é cada um por si. Será que Goreng vai conseguir sobreviver seis meses nesse inferno? Você seria capaz? A verdade é que não sabemos quais são os limites de nossos valores e de nossas capacidades até o dia em que eles são colocados à prova.

Trimagasi (Zorion Eguileor) “El Hoyo” – Basque Films; Mr. Miyagi Films; Plataforma La Película; e A. I. E./NETFLIX

>Em suma, o invólucro de Locke & Key é de qualidade, mas o seu conteúdo decepciona o público que embarca com grandes expectativas.

Ao invés de abordar os motivos que levaram à criação d’O Poço e o papel que ele cumpre na sociedade espanhola, o enredo do filme escolhe focar nas transformações pelas quais os personagens passam ao longo do encarceramento. Enquanto Goreng se apresenta como um completo outsider do sistema, e ainda conservando os seus ideais e valores intactos, o seu colega de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor), representa o suprassumo do insider ao exibir uma filosofia de sobrevivência pragmática e sociopata. O relacionamento entre os dois demonstra os altos e baixos da experiência e funciona como um aviso, tanto para o protagonista quanto para o telespectador, das severas consequências que o tempo de confinamento n’O Poço é capaz de ter na mente das pessoas.

O Poço consiste em uma prisão vertical com vários andares. Em cada andar há um par de presos. Em função disso, a quantidade de comida disponível para os presos dos andares superiores é maior do que a disponível para os presos dos andares inferiores, pois os que estão por cima consomem muito mais do que precisam e pouca comida sobra para quem se encontra por baixo. No entanto, os presos são realocados mensalmente em andares aleatórios d’O Poço, o que torna tanto o prestígio quanto o sofrimento fenômenos “democráticos”, visto que as posições podem se alternar com facilidade. Dessa forma, o filme insere uma crítica social interessante ao não retratar nem o privilégio e nem o prejuízo como situações estáticas.

Os prisioneiros que já passaram mais tempo n’O Poço provavelmente já experenciaram situações boas e ruins e compreendem as consequências do sistema. Entretanto, a sua continuidade demonstra a ausência de interesse em melhorar as circunstâncias d’O Poço através da criação de uma rede de solidariedade espontânea entre os presos. O questionamento que o filme deixa com toda essa construção é: o quê você faria em meu lugar? A busca por justiça é dependente do seu lugar na escala social? E, caso você ascenda ou descenda na escala, a sua posição pode mudar meramente por uma questão de circunstâncias?

>Série desperdiça chance de criar algo épico, e será mais lembrada pela música chiclete do que pela história.

El Hoyo” – Basque Films; Mr. Miyagi Films; Plataforma La Película; e A. I. E./NETFLIX

O final do filme é um enigma. No entanto, eu interpreto como uma denúncia das vítimas desse sistema criado e sustentado pela vontade humana por sabe-se lá quanto tempo. A reflexão sobre a necessidade de uma rede de solidariedade espontânea é essencial para que possamos construir uma sociedade onde todos tenham os mesmos direitos e oportunidades. A questão colocada não é apenas a sobrevivência, mas a experiência de viver a vida de acordo com os nossos valores pessoais.

As performances foram muito boas. Iván Massangué (7 Vidas) se apresentou como um perfeito avatar para a audiência no filme, sendo tão ingênuo e idealista quanto uma pessoa normal seria ao adentrar esse submundo. Zorion Eguileor (Estoy Vivo) foi uma joia nesse filme, sendo tanto sombrio quanto engraçado e cativando o telespectador com cada palavra. Óbvio (entendedores entenderão).

El Hoyo” – Basque Films; Mr. Miyagi Films; Plataforma La Película; e A. I. E./NETFLIX

De resto, o design de produção foi muito bom, a trilha sonora se fez presente quando foi necessária, o figurino e os efeitos especiais foram adequados, e a discreta direção não brilhou nem pecou. Portanto, tudo dentro dos padrões desejados para um filme desse tipo, que depende muito mais do seu roteiro para suceder em sua execução do que nos demais fatores. É claro que isso não quer dizer que os demais aspectos não auxiliaram na criação de uma atmosfera que fizesse justiça ao filme.

Em suma, O Poço é uma agradável surpresa repleta de emoções fortes, reflexões sociais e uma mensagem de conscientização em prol da esperança para a humanidade. Trata-se de um filme altamente recomendável para os fãs do gênero e os curiosos quanto a essa abordagem específica. Pode confiar. Óbvio (OK. Parei…).

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