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Nomadland e o desmonte do sonho americano

Filme mostra a dificuldades que acompanha viver na estrada e chama atenção para um problemática posta à margem, mas que é realidade de muitos.
5/5
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Nomadland ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2020 e é uma das grandes apostas para o Oscar deste ano

“Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não ser… Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva… Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos – Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!”.


Este trecho do livro “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector, traz a tona questionamentos parecidos com os expostos em “Nomadland”, filme da diretora Chloé Zhao inspirado no livro homônimo da autora Jessica Bruder.

Nele, somos apresentados a Fern (Frances McDormand), uma mulher viúva em torno dos seus sessenta anos que perde tudo durante a grande recessão nos Estados Unidos e adota um estilo de vida nômade, morando numa van.

reprodução / 20th Century Filmes

A luta por sobrevivência de Fern espelha a de tantas outras vítimas do chamado sonho americano: trabalhadores honestos que são explorados por grandes empresas e afundam-se em dívidas e frustrações, deteriorando a sua saúde física e mental.

A atual cultura da produtividade acelerada esconde uma igualmente acelerada deterioração da sociedade em diversas frontes: social, física, mental, econômica, etc. Como uma resposta a esta crise, muitas pessoas adotam um estilo de vida nômade, onde moram em seus veículos e sobrevivem fazendo bicos por onde passam.

+Denso, enigmático e difícil de digerir. Essas características de Estou Pensando em Acabar com Tudo pode afastar uma parte da audiência, e reduzir o filme a um ajuntamento pretensioso.

Nomadland mostra as dificuldades que acompanham a vida na estrada: incerteza, falta de privacidade, julgamento, apertos financeiros e falta de segurança. O filme chama atenção para uma problemática posta à margem, mas que é a realidade de muitos.

Em termos técnicos, Nomadland brilha através da sua fotografia, assinada por Joshua James Richards, parceiro de longa data de Zhao. A beleza natural da estrada e sua expansividade é usada em todo seu potencial, sendo uma personagem a parte, complementada pelos shots intimistas dos personagens.

reprodução / 20th Century Filmes

O filme segue em uma velocidade quase meditativa, em harmonia com o dia a dia da personagem principal. Outro aspecto que merece destaque é a trilha sonora do compositor italiano Ludovico Einaudi, que esboça emoção sem ser melodramática.

Talvez a escolha criativa mais acertada de Nomadland foi ter um elenco composto majoritariamente de pessoas comuns. Além de Frances McDormand e David Strathairn, a narrativa é contada por um grupo de nômades contemporâneos que interpretam a si mesmos, dando um ar de autenticidade ao filme que não pode ser manufaturada.

Por esses e outros trunfos, Nomadland ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2020 e é uma das grandes apostas para o Oscar deste ano.

+Vida difícil também nesse filme, leia nossa crítica sobre Carcereiros: O Filme.

No seu centro, Nomadland carrega algo presente no cerne do espírito humano: o desejo de continuar, de sobreviver. Nomadland celebra a resiliência, criatividade e, principalmente, a comunidade pelos personagens.

Longe de ser um filme depressivo, Nomadland retrata todo o espectro emocional que uma vida humana carrega. É sobre o mundano, sobre a natureza, sobre a injustiça do sonho americano, sobre as coisas que colecionamos ao longo da vida, sobre música, dança, sorrisos, noites frias, amizade, romance e família. Nomadland é, acima de tudo, um filme humano.