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‘Estou pensando em acabar com tudo’ e a complexidade da psique humana

Denso, enigmático e difícil de digerir. Essas características irão afastar uma parte da audiência, que pode reduzir o filme a um ajuntamento pretensioso.
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Avaliação: 5 de 5.

Alguns filmes tem o poder de roubar suas palavras e te fazer olhar em transe para a tela tempos depois dos créditos rolarem. O novo filme de Charlie Kaufman, “Estou pensando em acabar com tudo”, pode não ter esse efeito em todos os telespectadores, mas uma certeza é que a obra abre espaço para inúmeras interpretações e questionamentos.

+assista “Estou Pensando em Acabar com Tudo” no NETFLIX

Disponível na plataforma de Streaming Netflix, a obra tem como diretor, escritor e produtor Charlie Kaufman, mais conhecido pelo seu trabalho na direção da animação “Anomalisa” e no roteiro de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. O filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor canadense Ian Reid.

No seu mais novo trabalho, Kaufman nos apresenta uma jovem da qual nunca aprendemos o nome (interpretada por Jessie Buckley) que está prestes a conhecer os pais do seu namorado, jake (Jesse Plemons), pela primeira vez. Logo nos primeiros momentos do filme a protagonista questiona o relacionamento e, parafraseando o título, pensa em acabar com tudo. Essa semente em forma de pensamento dá início a uma avassaladora crise existencial.

divulgação / NETFLIX

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Kaufman pega esta premissa simples e a estende em um drama psicológico complexo. A atmosfera claustrofóbica e desconfortável gerada na primeira interação do casal só aumenta ao chegarmos na casa dos pais de Jake, localizada em uma fazenda remota em pleno inverno. A narrativa não-linear e por vezes surreal – marca de Kaufman – se desenrola e revela peças de um quebra- cabeça que só aumenta de tamanho.

O filme exige a atenção da audiência. Cada detalhe, diálogo, localização e nuances importam. A construção das cenas é feita sem pressa, muitas sequências são extensas e cheias de referências à livros, filmes, poemas e personalidades. Tudo tem a sua função para a construção do ato final, que desabrocha em um êxtase de surrealismo e metalinguagem.

divulgação / NETFLIX

Além da construção minuciosa da trama, o filme tem uma montagem impecável, com enquadramentos e ângulos engenhosos, mudanças sutis que dizem muito e atuações marcantes. Somando-se a presença de Jessie Buckley e Jesse Plemons, as performances de Toni Collette e David Thewlis, que interpretam os pais de Jake, engrandecem a atmosfera inquietante do filme.

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“Estou pensando em acabar com tudo” é denso, enigmático e difícil de digerir. Essas características irão afastar uma parte da audiência, que pode reduzir o filme a um ajuntamento pretensioso. Entretanto, aqueles que entrarem sem amarras na narrativa irão se deliciar dissecando os simbolismos e reflexões que Kaufman traz a tona.

Dentro da narrativa floreada estão questões sobre o envelhecimento, o sentido da vida e a necessidade de assimilarmos histórias entendermos o nosso mundo interno e externo. É sobre a solidão da existência e a complexidade da psique humana. Tirando todos os enfeites, é isto que sobra: a universalidade do específico.