Crítica: Coringa

Filme mais esperado do ano mostra uma história madura e que está bem mais perto da realidade do que queremos e possamos admitir.
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Tempo de leitura: 4 minutos

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Em 2019 completou-se 10 anos da estreia do que é considerado um dos melhores filmes de herói de todos os tempos, não apenas por consenso da crítica, mas também do meio nerd (o que é uma raridade). O Cavaleiro das Trevas (2009) se consagra pelo roubo de cena por parte de Heath Ledger que havia trazido o melhor retrato do mais complexo vilão dos quadrinhos: o Coringa. Desde então, se acreditava impossível que se pudesse voltar a encarnar tão perfeitamente o icônico personagem. No entanto, neste ano Joaquín Phoenix chega às telonas com a versão mais atormentada do personagem em um controverso clássico instantâneo.

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Coringa (2019) é daqueles filmes que é difícil falar sobre a sinopse sem pelo menos roubar um pouco da experiência que o espectador teria em ir descobrindo detalhes do personagem com o decorrer do filme. Isto porque o diretor e roteirista Todd Phillips teve o cuidado de construir uma narrativa não expositiva, ou seja, o espectador aprende de maneira orgânica e em longo prazo os motivos pelos quais o protagonista age como age, porque ele está na situação em que está. Além disso, antes de ver o filme é importante manter em mente que este não se relaciona com os anteriores do universo DC e é uma visão particular sobre o célebre vilão.

Neste sentido, para não lhes abster de uma sinopse, mas também não lhes roubar a experiência, o filme foca na trajetória de Arthur Fleck (Joaquín Phoenix), cidadão de Gotham a qual se encontra em crise, suja por conta de uma greve dos lixeiros e socialmente corrompida. Arthur nos é introduzido como uma vítima desta sociedade degradante, tentando fazer sua vida apesar de sua doença e da violência psicológica que o aflige vindo de todas as direções, inclusive a interna.

Coringa – © DC Comics / Warner Bros. Filmes

Apesar de ter sido dito anteriormente que é impossível falar sobre o roteiro do Coringa sem estragar o filme, é também verdade que é impossível descrever a experiência sem vê-lo em razão do que é seu ponto alto: a genial atuação de Joaquín Phoenix. O ator entrega em absolutamente todos os sentidos, desde os olhos que não apenas não riem junto com a boca, como por vezes parecem chorar enquanto ecoa risada, o enrugar da testa, a voz levemente falha, a obsessão contida. Phoenix perpassa de maneira sublime pelos estágios de construção de um sociopata, demonstrando quase uma inocência diante de uma sociedade que agride até o fazer voltar-se contra ela.

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Esta não se trata de uma produção fácil de digerir e abre portas para diversas interpretações.  Por um lado, isto é positivo considerando o volume atual de filmes superexpositivos e sem qualquer cuidado de roteiro. Por outro lado, toda vez em que uma produção tentou trazer uma mensagem mais incisiva sobre violência, existiu a parcela da população que a distorce para algo corrupto. Assim como os clássicos Laranja Mecânica (1971) e Clube da Luta (1999), Coringa traz uma abordagem crítica em relação a violência através da sua “ultra-utilização”, o qual é por vezes mal interpretado como encorajamento.

Coringa – © DC Comics / Warner Bros. Filmes

Longe de encorajar, Coringa na verdade busca denunciar os comportamentos distorcidos da sociedade. Denuncia toda a hipocrisia por traz de cada ação humana, o descaso, a falta de empatia, o despreparo e preconceito para com doenças psicológicas. O diretor toma seu tempo construindo a formação de um sociopata, dando a cada cena e cada linha de roteiro um significado, alocando cada frame e cada faixa da trilha sonora de forma magistral em função de entender o incômodo e descolamento com a realidade que aquele personagem passa.

Se algo é certo, apesar de todas as polêmicas e até divergências de opiniões, é que Coringa vai te incomodar. Por vezes talvez te faça desviar o olhar da tela. Não vai te incomodar pela violência física, mas especialmente pela psicológica. Vai te fazer sair do cinema e pensar no que você viu por horas e querer debater as diferentes camadas de interpretação. É certo também o porquê dos oito minutos de aplauso, com direto ao principal prêmio do Festival de Veneza de 2019, uma vez que a épica atuação de Phoenix dificilmente cairá no oblívio.


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