“Com Enola Holmes, Quem Precisa De Sherlock!”

No fim temos uma experiência satisfatória, que pode divertir todas as idades e que deve atrair mais jovens para o material
5/5

Avaliação: 4 de 5.

* SEM SPOILER

Quem não conhece Sherlock Holmes? Você pode nunca ter lido um livro do famoso personagem de Sir Arthur Conan Doyle, mas o detetive mais famoso do mundo está tão cravado na cultura popular mundial que até na última semana a internet entrou em polvorosa, pois aparentemente uma grande demografia sequer sabia que ele não existiu. Houve já tantas adaptações em formatos diferentes da história do detetive, que é até difícil pensar numa nova abordagem para ele. É justamente o que Enola Holmes (2020) se propõe a fazer.

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Baseado na série de livros infanto-juvenil The Mysteries of Enola Holmes (2006-2010), o mais novo filme da Netflix traz Sherlock Holmes de volta para a mídia audiovisual, no entanto como mero coadjuvante uma vez que o protagonismo e a narração desta aventura estão com a jovem Enola Holmes, sua irmã mais nova. Enquanto os irmãos vivem seus caminhos em Londres, Enola é criada no interior pela sua mãe sob moldes contraditórios aos aceitáveis para as mulheres da Era Vitoriana. No entanto, no dia do seu aniversário de 16 anos, sua mãe desaparece e Enola embarca em sua busca, também fugindo da prospectiva de ser enviada para uma Escola de Garotas.

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Existem dois pontos a serem enfatizados dos parágrafos anteriores que devem ser mantidos em mente antes de dar o play. O primeiro é que esta se trata de uma aventura infanto-juvenil, portanto toda a montagem, os personagens, o humor é voltado para tal público, o público que provavelmente também está tendo seu primeiro contado com as histórias de Sherlock Holmes e que estão se despertando para a literatura. O segundo ponto é justamente que o próprio Sherlock Holmes é uma peça completamente secundária aqui, e isto vira um ponto positivo para o filme.

divulgação / NETFLIX

Uma vez que Sherlock Holmes é um personagem tão vivido no imaginário das pessoas, o fato de ele não exagerar sua estadia no filme faz com que ele continue como um ser elevado ao mesmo tempo em que permite que a protagonista tenha domínio da sua história. Além disso, a própria Enola tem como parte de seu arco o desenvolvimento das suas habilidades de detetive, e é clara a inspiração dos passos na reputação do seu irmão mais velho, como a fama de Sherlock como mestre dos disfarces. Outra decisão aqui foi a quebra da quarta parede pela narradora, já que não temos o artificio do Dr. Watson para que a deduções sejam explicadas para o público, algo que foi interessante até o ponto que passa a ser usada com excesso e desnecessariamente.

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No entanto, o mais interessante desta adaptação foi a direção da abordagem. Veja bem, não existiria muito valor em outra adaptação de Sherlock Holmes se não houvesse algo interessante a ser dito, e ao seguir a jornada de Enola, entre encontrar sua mãe e desvendar um mistério, somos expostos às rígidas regras sociais que afligiam as mulheres daquele período. Como dito por uma personagem no filme, o detetive nunca se interessou por política porque ele “não tem interesse em mudar uma sociedade que é feita para lhe favorecer”. Esse tema sendo abordado no filme de forma tão direta e tão natural enriquece o que está em jogo no mistério dentro da trama, e eleva o longa na vida real.

divulgação / NETFLIX

Sobre as atuações, pode-se dizer que o Henry Cavill convence e é marcante como Sherlock, estando ao seu favor a pouca presença de tela. Millie Bobbie Brown se encaixa em no papel da jovem heroína uma vez que a própria atriz é muito empática, e é muito claro que ela está se divertindo no papel. Millie pode não ser a melhor atriz do mundo, mas ela é muito melhor que a maioria das atrizes da sua idade, e é gratificante ver adolescentes de verdade no papel de adolescentes, o que não muito comum em Hollywood. Sam Caflin também não aparece tanto, mas é interessante ver o ator num papel mais antagônico.

Enola Holmes é extremamente divertido e interessante. É bem produzido, com uma fotografia que retrata muito bem a poluição da Londres Industrial, mas que ao mesmo tempo tem um quê caricatural. A montagem dinâmica, e as escolhas gráficas para ilustrar as deduções dão um bom ritmo para a trama. No fim temos uma experiência satisfatória, que pode divertir todas as idades e que deve até atrair mais jovens para o material inspiração. PS: estou aguardando ansiosamente para a continuação, pois final deixa você com muita vontade de passar mais tempo com Enola Holmes.