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A política das histórias de verão de Kogut

A escolha por retratar os verões como três atos, mostra como a passagem do tempo transforma a vida de quem sofreu com os impactos da política.
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A narrativa repleta de brasilidade de Sandra Kogut conquista prêmios internacionais antes mesmo de brilhar nas telas. Nada como o bom e velho cinema nacional para tecer críticas políticas com um humor implacável! E nenhuma crítica poderia ser tão atual quanto o roteiro de Três Verões, a tão esperada obra da diretora Sandra Kogut. Por conta da pandemia da covid-19, a estreia do filme, marcada para 19 de março, foi adiada para hoje, 3 de setembro. E a ansiedade dos fãs só aumenta! A obra conta os desdobramentos de uma crise política vivida por uma família de classe alta do Rio a partir do impacto na vida dos funcionários da casa. O destaque, você já sabe. Regina Casé mostra bom humor e criatividade como a inovadora Mada, caseira da família.

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A escolha por retratar o verão por três anos, ou melhor, três atos, mostra como a passagem do tempo transforma a vida de quem sofreu com os impactos da política. De cara, fica evidente que os patrões não deixam se ser meros coadjuvantes na história, recorrentes apenas nos primeiros 40 minutos de filme. Em Três Verões, a narrativa é dos que foram há muito silenciados: os uniformizados trabalhadores. O longa foca no impacto da crise política e como, na adversidade, foi construída uma sólida amizade entre Mada, Vanessa (Jéssica Ellen), e até Seu Lira (Rogério Fróes) – amizade improvável com o pai do patrão, Edgar (Otávio Müller).

divulgação / Vitrine Filmes

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Regina Casé encarna o bom humor e o empreendedorismo da carismática Mada sem nenhuma dificuldade. Calça os sapatos da caseira faz-tudo, a personagem “quase da família” que, mesmo sem saber, se torna laranja do seu patrão, Edgar. No segundo ato, Mada se torna a grande mãe do grupo e coordenando atividades de todos da casa. Ela rouba a cena com o otimismo e a belíssima relação de amizade que floresce entre Mada e Seu Lira, mas sua verdadeira revelação acontece no terceiro ato. Mostra a profundidade de uma personagem que carrega as marcas do sofrimento por uma causa tão real – sem spoiler!

A visão de um escândalo de corrupção, que muito se parece com a Operação Lava-Jato, é apresentada por quem está de fora. Durante o segundo ato, os funcionários da casa tentam entender o que acontece a partir de informações picotadas e mesmo codificadas que são apresentadas pelos “patrões”. Esse novo olhar mostra como eles tentam se desdobrar para conseguir pagar os próprios salários e construírem a unidade e a parceria nos momentos mais adversos. Símbolos como um pato amarelo ou o motivo da operação nos dão grandes pistas das inspirações em fatos reais.

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Posso ousar dizer que Kogut se inspirou em outra grande obra recente do cinema nacional, também protagonizada por Regina Casé – Que horas ela volta? (2015). Ao longo do filme, me senti transportada para o ponto de vista de personagem Val, em muito parecida com Mada, duas atuações impecáveis de Casé. As similaridades das personagens param na evolução ao longo da narrativa. Enquanto o desenvolvimento de Val caminha para a liberdade e quebra de construções sociais, Mada mostra que há muito peso enterrado por trás do impecável sorriso. Nos dois casos, a emoção faz a personagem, e quem mais ganha é o espectador.

Antes mesmo de brilhar em solo brasileiro, o longa passou a limpa em grandes premiações, com destaque para o brilhantismo de Casé, que levou a estatueta de Melhor Atriz no Festival de Málaga, Prêmio Golden Orange e Troféu Redentor. Celebrar o cinema nacional é essencial, e não há como não celebrar a obra-prima de Três Verões. Uma história bem brasileira, com pitadas de bom humor mescladas com drama sensível, elenco impecável e bem trabalhado, e direção marcante. O cinema brasileiro vive, resiste e reverbera!